Conheça “Neo”, o esqueleto mais completo do Homo naledi já encontrado

By Colin Barras

Quase quatro anos atrás, os pesquisadores recuperaram 1500 ossos e dentes humanos antigos de uma câmara rochosa do sistema de cavernas Rising Star, África do Sul.

Nealedi

Conheça Neo – uma estrela ascendente. Witwatersrand University/John Hawks.

A equipe já recuperou 130 ossos e dentes de Hominina de uma segunda câmara em Rising Star. Eles dizem que as descobertas – e a primeira confirmação oficial da idade dos espécimes – têm o potencial de transformar nossa compreensão de como e onde os primeiros seres humanos evoluíram.

Pesquisadores que investigam as profundas raízes evolutivas da humanidade raramente encontram fragmentos de ossos de Hominina, muito menos esqueletos relativamente completos. Muitos olharam com olhos ciumentos em 2013, quando Lee Berger, da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, África do Sul, e seus colegas retiraram centenas de ossos da câmara Dinaledi em Rising Star.

Mas não foi apenas o volume de material que foi significativo. A equipe de Berger rapidamente percebeu que eles pertenciam a uma espécie nunca vista antes. Seu corpo pequeno tinha mãos e pés como do homem moderno, um cérebro pequeno como o de um humano primitivo, e uma pelve e ombros como a do Australopithecus, semelhante à de um macaco. Em 2015 a equipe nomeou os achados de Homo naledi.

O mais novo achado – recuperado da câmara Rising Star, agora chamada Câmara Lesedi – nos dá uma melhor noção do alcance e da importância das descobertas. Temos agora a confirmação oficial de que os restos de H. naledi pertencem a pelo menos três indivíduos e, de fato, muitos dos ossos e dentes pertencem a um único esqueleto adulto e notavelmente completo, apelidado de Neo. “É um dos maiores achados fósseis do século 21”, diz Berger.

A julgar pelo tamanho dos ossos, Neo teria cerca de 1,4 metros de altura e pesava aproximadamente 40 kg, diz William Jungers da Universidade Stony Brook, em Nova York, que não esteve envolvido na pesquisa. “H. Naledi era menor do que o que foi proposto originalmente”, diz ele.

Um humano de cérebro pequeno que viveu entre nós

 Talvez mais significativo é que pela primeira vez a equipe procurou determinar a idade dos restos fósseis de H. naledi da câmera de Dinaledi. Isso, em parte foi difícil porque os fósseis foram encontrados em sedimentos inconsolidados ao invés de rocha dura, o que é mais comum. Mas a análise isotópica cuidadosa desses sedimentos e das camadas de calcário que se formaram após os restos de H. naledi terem sidos adicionados à caverna sugerem que a idade dos fósseis está entre 230.000 e 415.000 anos. A análise isotópica do material obtido a partir de três dentes de H. naledi ajudou a reduzir ainda mais estes números. Os ossos de H. naledi em Dinaledi teriam entre 236.000 e 335.000 anos.

Existe um concenso quase que universal de que esta faixa de idades é significativa. Isto coloca o H. naledi do sul da África não muito antes da nossa espécie (seres humanos modernos) ter aparecido em outros lugares da África – e muito depois dos Hominini de cérebro pequeno terem desaparecido do continente. “O que torna isso especialmente fascinante é que H. naledi era mais diferente dos seres humanos modernos do que os neandertais, outra espécie com a qual os humanos modernos coexistiram”, diz Fred Spoor, da University College de Londres.

A idade dos restos de H. naledi também cai em um período em que o registro fóssil dos Hominina é geralmente pobre. Sabemos que várias espécies de Hominina aparentemente coexistiram na África há mais de dois milhões de anos e que várias espécies pareciam ter coexistido em toda a Eurásia nos últimos 100 mil anos. “Agora presenciamos esta diversidade nesta época [236.000 a 335.000 anos]”, diz Carol Ward, da Universidade de Missouri, Columbia. “Isso é excitante.”

Bernard Wood da Universidade George Washington em Washington DC não se surpreendeu com as idades. Poucos meses depois da publicação dos primeiros artigos sobre H. naledi, ele apostou com um colega que a espécie teria menos de 500.000 anos. Foram as mãos que lhe deram esta pista, diz ele. “Meu sentimento era que ter uma mão e um pé relativamente modernos era importante no estudo da datação”, diz ele.

Wood acredita que uma análise evolutiva completa poderia concluir a partir das mãos e pés modernos que H. naledi se ramificou de outros seres humanos em um tempo relativamente recente. “Suas características primitivas podem ser enganosas”, diz ele. Isso significaria que ele se originou recentemente e evoluiu para uma forma mais primitiva devido ao isolamento.

Neo é um dos mais importantes achados fósseis do século XXI. Witwatersrand University/John Hawks.

Por exemplo, a África Austral poderia ter estado relativamente isolada do resto do continente naquele tempo, diz Wood, de forma que a linhagem de H. naledi poderia, em termos comparativos, ter concorrido pouco com outros seres humanos. Isso poderia ter aliviado a pressão para o desenvolvimento e manutenção de um cérebro grande. Se o esqueleto não tivesse mais que suportar o peso de um crânio grande e pesado, características como os quadris e os ombros poderiam ter revertido para uma forma parecida com a de um Hominini de cérebro pequeno.

Mas outros pesquisadores estão razoavelmente certos de que H. naledi seja genuinamente um humano primitivo – embora tenha sobrevivido até recentemente. “Pode estar próximo da origem do gênero Homo“, diz Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres.

“Pode até ser o Homo mais primitivo que já descobrimos”, diz Berger. “Sua origem pode ter sido muito antes de dois milhões de anos.”

Ele acha que isso poderia abalar o modelo de Wood. Ao invés de ver a África Austral como um “beco-sem-saída” evolutivo, talvez ela seja realmente a força motriz da evolução humana: a região onde muitas espécies humanas, incluindo a nossa, apareceu pela primeira vez. “As regiões subequatoriais são os motores da biodiversidade”, diz ele.

Implicações profundas

Esta nova maneira de pensar pode ter profundas implicações, diz ele. Por exemplo, a estranha mistura de feições de H. naledi – algumas com aparência moderna, algumas mais antigas – sugere que o surgimento da anatomia humana reconhecidamente moderna foi muito mais complicado do que se pensava originalmente.

E a ideia de que H. naledi poderia ter sobrevivido no cadinho da evolução humana por dois milhões de anos deve por em causa a ideia de que a competição entre linhagens humanas conduziu a marcha universal para cérebros cada vez maiores. “Isto foi sempre apenas um conto – e está encerrado agora”, diz Berger.

Mesmo o registro arqueológico de ferramentas de pedra precisa ser reavaliado dado que as mãos modernas de H. naledi deveriam ter sido capazes de manipulação fina. Em um terceiro artigo, a equipe de Berger especula que as ferramentas de pedra geralmente assumidas como sendo o trabalho de seres humanos reconhecidamente modernos, como o Homo erectus ou mesmo o H. Sapiens, poderiam ter sido obra de H. naledi.

Podemos apenas supor quais implicações houveram para compreender como os antigos seres humanos se espalharam para fora da África. Talvez de forma significativa, a anatomia de H. naledi sugere que ele poderia percorrer longas distâncias.

No entanto, esta especulação está chegando muito carregada e rápida para o gosto de outros pesquisadores. Wood, por exemplo, não diz nada sobre o que aprendemos até agora sobre H. naledi que possa encorajá-lo a mudar a forma como ensina a evolução humana para seus alunos.

“Lee gosta de empurrar o envelope, chegando às vezes além da informação que tem em mãos” diz Jungers. Diz ainda que seria prudente esperar por evidência mais sólida antes que os experimentos do pensamento fiquem fora de controle.

Berger aceita este ponto de vista, e prevê que haverá interesse renovado na busca de novas evidências, revisitando, por exemplo, locais arqueológicos já escavados anteriormente. “Gosh eu adoraria ser um arqueólogo jovem agora”, diz ele.

Referências:

Neo’s skeleton: eLife, DOI: 10.7554 / eLife 24232.

– Datando o Homo naledi permanece: DOI: 10.7554 / eLife 24231.

Homo naledi e ferramentas: DOI: 10.7554 / eLife 24234.001.

 

Fonte : New Scientist

09/10/2017

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