Idade surpreendentemente jovem do Homo naledi abre mais perguntas sobre de onde viemos

Hominini descoberto em 2015 pela equipe Rising Star da África do Sul teria vivido entre 335.000 e 236.000 anos atrás.

Nealedi

Mapa esquemático do sistema de cavernas Rising Star. Créditos: Marina Elliott/Wits University

Cientistas anunciaram hoje, 09/07/17 que o sistema de cavernas Rising Star revelou descobertas ainda mais importantes, apenas um ano e meio depois que foi anunciado que o mais rico local de hominídeos fósseis da África havia sido descoberto e que continha uma nova espécie chamada Homo naledi.

A idade dos restos originais do Homo naledi da Câmara Dinaledi revelaram-se surpreendentemente jovens. O Homo naledi anunciado pela primeira vez em setembro de 2015, viveu há algum tempo entre 335 e 236 mil anos atrás. Isto coloca esta população primitiva da Tribo Hominini, de cérebro pequeno, em uma época e lugar que indica que eles provavelmente viveram ao lado do Homo sapiens. Esta é a primeira vez que foi demonstrado que outra espécie de Hominini sobreviveu ao lado dos primeiros seres humanos na África.

A pesquisa, publicada em três artigos da Revista eLife, apresenta a tão esperada idade dos fósseis naledi da Câmara Dinaledi e anuncia a descoberta de uma segunda câmara do sistema de cavernas Rising Star, contendo espécimes adicionais de Homo naledi. Estes incluem uma criança e um esqueleto parcial de um macho adulto com um crânio notavelmente bem preservado.

A nova descoberta foi feita por uma grande equipe de pesquisadores da Universidade de Witwatersrand, James Cook University, Austrália e da Universidade de Wisconsin, Madison, EUA e mais de 30 instituições internacionais anunciaram suas principais descobertas relacionadas com a espécie de hominídeo fóssil Homo naledi.

A equipe foi conduzida pelo Prof. Lee Berger da Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, África do Sul, e por um residente da National Geographic Explorer. A descoberta da segunda câmara com abundantes fósseis de Homo naledi inclui um dos esqueletos mais completos de um Hominini já descoberto, bem como os restos de pelo menos uma criança e outro adulto. A descoberta de uma segunda câmara levou a equipe a argumentar que há mais evidência para a hipótese controversa de que Homo naledi teria eliminado deliberadamente seus mortos nestas cavernas remotas e de acesso difícil. A datação de Homo naledi foi apresentada no artigo intitulado: The age of Homo naledi and associated sediments in the Rising Star Cave, South Africa, liderado pelo professor Paul Dirks da James Cook University e da Universidade de Witwatersrand.

A idade é surpreendentemente jovem. Os restos fósseis têm características primitivas que são compartilhadas com alguns dos primeiros fósseis conhecidos do nosso gênero, como Homo rudolfensis e Homo habilis, espécies que viveram há quase dois milhões de anos. Por outro lado, compartilha também algumas características com os seres humanos modernos. Após a descrição da nova espécie em 2015, os especialistas previram que a idade dos fósseis deveria ser próxima da idade dessas outras espécies primitivas. Em vez disso, os fósseis da Câmara Dinaledi são apenas pouco mais que um décimo dessa idade.

“A datação do H. naledi foi extremamente desafiadora”, observou Dirks, que trabalhou com mais dezenove cientistas de laboratórios e instituições em todo o mundo, incluindo laboratórios da África do Sul e Austrália, para estabelecer a idade dos fósseis. “Eventualmente, seis métodos de datação independentes nos permitiram restringir a idade desta população de H. naledi ao Pleistoceno Médio tardio”.

A idade desta população de Hominini demonstra que H. naledi pode ter sobrevivido por cerca de dois milhões de anos ao lado de outras espécies de Hominini na África. Previamente pensou-se que numa idade tão recente como o Pleistoceno Médio tardio, somente Homo sapiens (seres humanos modernos) existiriam na África. Mais criticamente, foi precisamente nesta época que vemos o surgimento do “comportamento humano moderno” na África Austral – comportamento atribuído, até agora, ao aparecimento dos seres humanos modernos e do pensamento, representando as origens de atividades complexas como o enterro dos mortos, a construção de adornos e de ferramentas complexas.

O jogo de idades

A equipe usou uma combinação dos métodos de Luminescência Opticamente Estimulada – LOE (para os sedimentos), com o método urânio-tório e análises paleomagnéticas (para as cortinas da caverna), com o objetivo de estabelecer a relação dos sedimentos com a escala de tempo geológica, na Câmara Dinaledi.

A datação direta dos dentes de Homo naledi, usando a Série Urânio e a datação por Ressonância de Spin Eletrônico (ESR), forneceu a idade final. “Utilizamos testes duplo-cego sempre que possível”, diz o professor Jan Kramers, da Universidade de Joanesburgo, um especialista em datação por urânio. A Dra. Hannah Hilbert-Wolf, geóloga da James Cook University, que também trabalhou na Câmara Dinaledi, observou que era crucial descobrir como os sedimentos estavam depositados dentro da câmara, para se construir um quadro geral que permitisse a compreensão dos dados obtidos.

“Claro que ficamos surpresos com a idade jovem dos restos fósseis, mas como percebemos que todas as formações geológicas na câmara eram jovens, os resultados da Série Urânio e ESR não mostraram tanta surpresa no final”, acrescentou o professor Eric Roberts, da James Cook University, um dos poucos geólogos que já entraram na Câmara Dinaledi, devido às dificuldades da rampa de acesso com cerca de 18 cm de largura.

A Dra. Marina Elliott, cientista de exploração da Universidade de Witwatersrand e um dos “astronautas subterrâneos” da expedição Rising Star em 2013, diz que sempre desconfiou que os fósseis naledi fossem “jovens”. “Tenho escavado centenas de ossos do Homo naledi, e desde o primeiro que toquei, percebi que havia algo diferente sobre a preservação, que eles pareciam quase fossilizados.”

O impacto significativo do Homo naledi

Em um artigo anexo preparado pelo Dr. Berger, intitulado Homo naledi and Pleistocene hominin evolution in subequatorial Africa, a equipe discute a importância de encontrar uma espécie tão primitiva nesta época e lugar. Eles observaram que a descoberta terá um impacto significativo na nossa interpretação de assembleias arqueológicas e no entendimento de quais espécies deram origem a elas.

“Não podemos mais supor que sabemos quais espécies fizeram que ferramentas, ou até mesmo assumir que foram os seres humanos modernos que foram os inovadores de alguns desses avanços tecnológicos e comportamentais críticos do registro arqueológico da África”, diz Berger. “Se há uma outra espécie lá fora que compartilhou o mundo com os seres humanos modernos da África, é muito provável que haja outros, só precisamos encontrá-los.

John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison e da Universidade de Witwatersrand, autor de todos os três artigos, diz: “Acredito que alguns cientistas assumiram que sabiam como a evolução humana teria acontecido, mas essas novas descobertas fósseis, além do que sabemos de genética, nos dizem que a metade sul da África foi o lar de uma diversidade que nunca havíamos visto antes em lugar algum”. “Recentemente, o registro de hominídeos fósseis tem sido cheio de surpresas, e a idade do Homo naledi não será a última a sair dessas cavernas, suspeito”, acrescenta Berger.

Uma nova câmara com um novo esqueleto

Em um terceiro artigo publicado ao mesmo tempo na Revista eLife, intitulado  New fossil remains of Homo naledi from the Lesedi Chamber, South Africa, a equipe anunciou a descoberta de uma segunda câmara, dentro do sistema de cavernas Rising Star, que contém mais restos de Homo Naledi.

“A câmara, que chamamos de Câmara Lesedi, está a mais de uma centena de metros da Câmara Dinaledi, sendo também de acesso muito difícil e também contém fósseis espetaculares de naledi, incluindo um esqueleto parcial com um crânio maravilhosamente completo” diz Hawks, autor principal do artigo que descreve a nova descoberta. Os restos fósseis foram reconhecidos pela primeira vez na câmara por Rick Hunter e Steven Tucker em 2013, enquanto o trabalho de campo estava em andamento na Câmara Dinaledi. O nome “Lesedi” significa “luz” na língua Setswana (língua oficial de Botswana). As escavações na Câmara Lesedi começaram mais tarde e levariam quase três anos.

Sem acesso fácil

“Acessar a Câmara Lesedi é apenas um pouco mais fácil do que a Câmara Dinaledi”, diz Elliott, que escavava fósseis na nova localidade. “Depois de passar por um estreito de cerca de 25 cm, você tem que descer ao longo de eixos verticais antes de chegar à câmara. Mesmo tendo um acesso um pouco mais fácil, trabalhar na Câmara Lesedi é mais difícil pois os espaços são muito pequenos.

Hawks aponta que, embora a Câmara Lesedi seja “mais fácil” de acessar do que a Câmara Dinaledi, o termo é relativo. “Eu nunca estive dentro de nenhuma das câmaras, e nunca estarei. Na verdade, cheguei a ver Lee Berger ficar preso por quase uma hora, tentando sair do estreito aperto subterrâneo da Câmara Lesedi”. Berger teve que ser retirado usando cordas amarradas a seus pulsos.

A presença de uma segunda câmara, distante da primeira, contendo múltiplos indivíduos do Homo naledi, quase tão difícil de alcançar quanto a Câmara Dinaledi, nos dá uma ideia do extraordinário esforço feito pelos nealedi para alcançarem estes locais, diz Hilbert-Wolf.

“Isso provavelmente acrescenta peso à hipótese de que Homo naledi estava usando lugares escuros e remotos para guardar seus mortos”, diz Hawks. “Quais são as chances de uma segunda ocorrência quase idêntica a esta acontecer por acaso?”

Até agora, os cientistas descobriram mais de 130 espécimes de Hominini da Câmara Lesedi. Os ossos pertencem a pelo menos três indivíduos, mas Elliot acredita que há mais fósseis ainda por descobrir. Entre os indivíduos estão os restos esqueléticos de dois adultos e pelo menos uma criança. A criança é representada por ossos da cabeça e do corpo e provavelmente teria menos de cinco anos de idade. Dos dois adultos, um é representado apenas por uma mandíbula e elementos da perna, mas o outro é representado por um esqueleto parcial, incluindo um crânio quase completo.

Reunião de naledi

A equipe descreve o crânio do esqueleto como “espetacularmente completo”. “Finalmente vemos o rosto do Homo naledi “, diz Peter Schmid, da Universidade de Witwatersrand e da Universidade de Zurique, que passou centenas de horas remontando meticulosamente os ossos frágeis para completar a reconstrução.

O esqueleto foi apelidado pela equipe de “Neo”, escolhido da palavra Sesotho que significa “um presente”. “O esqueleto de Neo é um dos mais completos já descobertos, tecnicamente ainda mais completo do que o famoso fóssil Lucy, dada a preservação do crânio e da mandíbula”, diz Berger.

Os espécimes da Câmara Lesedi são quase idênticos em todos os sentidos àqueles da Câmara Dinaledi, um achado notável em si. “Não há dúvida de que pertencem à mesma espécie”, diz Hawks. Os fósseis da Câmara Lesedi ainda não foram datados, uma vez que a datação exigiria a destruição de partes dos restos fósseis. “Uma vez descritos, vamos verificar o caminho a ser seguido para o estabelecimento da idade desses fósseis”, diz Dirks. Elliot acrescenta, entretanto, que como a preservação e a condição dos achados são praticamente idênticas aos espécimes naledi da Câmara Dinaledi, a equipe supõe que a idade será mais ou menos a mesma.

Berger acredita que com os milhares de fósseis provavelmente permanecendo nas câmaras Lesedi e Dinaledi, haverá ainda décadas de pesquisa em potencial. “Vamos tratar a extração contínua de material de ambas as câmaras com extremo cuidado e consideração e com o pleno conhecimento de que precisamos conservar material para futuras gerações de cientistas e futuras inovações tecnológicas”, diz ele. Cinquenta e dois cientistas de 35 departamentos e instituições foram envolvidos na pesquisa.

O Vice-Chanceler e Diretor da Universidade de Witwatersrand, Prof. Adam Habib disse: “A busca das origens do homem no continente africano começou em Witwatersrand e é maravilhoso ver este legado continuar com descobertas tão importantes”

“A National Geographic Society tem uma longa história de investimento em pessoas corajosas e com ideias transformadoras”, disse Gary E. Knell, presidente da instituição e um financiador das expedições que recuperaram os fósseis e estabeleceram sua idade. “As descobertas contínuas de Lee Berger e de seus colegas mostram porque torna-se fundamental apoiar o estudo das origens humanas e de outras questões científicas tão prementes.”

Referências:

1. Paul HGM Dirks, Eric M Roberts, Hannah Hilbert-Wolf, Jan D Kramers, John Hawks, Anthony Dosseto, Mathieu Duval, Marina Elliott, Mary Evans, Rainer Grün, John Hellstrom, Andy IR Herries, Renaud Joannes-Boyau, Tebogo V Makhubela, Christa J Placzek, Jessie Robbins, Carl Spandler, Jelle Wiersma, Jon Woodhead, Lee R Berger. The age of Homo naledi and associated sediments in the Rising Star Cave, South Africa. eLife, 2017; 6 DOI: 10.7554/eLife.24231

2. John Hawks, Marina Elliott, Peter Schmid, Steven E Churchill, Darryl J de Ruiter, Eric M Roberts, Hannah Hilbert-Wolf, Heather M Garvin, Scott A Williams, Lucas K Delezene, Elen M Feuerriegel, Patrick Randolph-Quinney, Tracy L Kivell, Myra F Laird, Gaokgatlhe Tawane, Jeremy M DeSilva, Shara E Bailey, Juliet K Brophy, Marc R Meyer, Matthew M Skinner, Matthew W Tocheri, Caroline VanSickle, Christopher S Walker, Timothy L Campbell, Brian Kuhn, Ashley Kruger, Steven Tucker, Alia Gurtov, Nompumelelo Hlophe, Rick Hunter, Hannah Morris, Becca Peixotto, Maropeng Ramalepa, Dirk van Rooyen, Mathabela Tsikoane, Pedro Boshoff, Paul HGM Dirks, Lee R Berger. New fossil remains of Homo naledi from the Lesedi Chamber, South Africa. eLife, 2017; 6 DOI: 10.7554/eLife.24232

3. Lee R Berger, John Hawks, Paul HGM Dirks, Marina Elliott, Eric M Roberts. Homo naledi and Pleistocene hominin evolution in subequatorial Africa. eLife, 2017; 6 DOI: 10.7554/eLife.24234

Fonte: Science Daily

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s